quarta-feira, 19 de setembro de 2007

PABLO NERUDA





Posso escrever os versos mais tristes esta noite.


Escrever, por exemplo:


"A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".


O vento da noite gira no céu e canta.


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.




Eu amei-a e por vezes ela também me amou.


Em noites como esta tive-a em meus braços.


Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.


Ela amou-me, por vezes eu também a amava.


Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.




Posso escrever os versos mais tristes esta noite.


Pensar que não a tenho.


Sentir que já a perdi.


Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.


E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.


Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.




A noite está estrelada e ela não está comigo.


Isso é tudo.


Ao longe alguém canta.


Ao longe.


A minha alma não se contenta com havê-la perdido.


Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.


O meu coração procura-a, ela não está comigo.


A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.


Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.




Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.


Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.


De outro. Será de outro.


Como antes dos meus beijos.


A voz, o corpo claro.


Os seus olhos infinitos.




Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.


É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.


Porque em noites como esta tive-a em meus braços,


a minha alma não se contenta por havê-la perdido.


Embora seja a última dor que ela me causa,


e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

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